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Limites do treinamento

Posted by on 27 de maio de 2011

Fiona, um caso difícil

Esse assunto é uma constante na vida de um educador de animais. Simplesmente porque no Brasil não temos o costume de adotar/comprar animais com ajuda profissional. E como é tudo muito passional, ou pior, baseado na estética, acabamos por perceber, no final, que o temperamento do animal é incompatível com o do tutor. Esse fato piora com a falta de regulamentação para a criação de animais, sendo que existem criadores sérios (poucos) e muitas fábricas de animais que não têm critério para cruzamento e acabam deformando o temperamento da raça.

A princípio essa questão não parece assim tão grave, mas se considerarmos que a relação humano-animal depende basicamente da capacidade do humano em se adaptar ao temperamento do animal para poder ter com ele uma relação prazerosa e não destrutiva, temos que os maiores limites são mesmo humanos.  E neste momento, chegamos num ponto interessante para os tutores que nos lêem, mas principalmente para os profissionais do comportamento ou aspirantes: temos sim, que saber o máximo que pudermos sobre comportamento animal, mas se você acha que isso é tudo, está enganado — temos que saber mais ainda sobre comportamento humano, o que não significa que seremos psicólogos e nem devemos, mas sim para que possamos acessar as pessoas pertencentes aos diversos tipos de personalidade. Compliquei?

Vamos supor que você seja do tipo durão, que consegue manter liderança mesmo sobre o cão mais dominante e vá atender uma cliente sensível, daquelas que vestem rosa bebê e dormem com um urso de pelúcia e com o cão, daquelas que o marido chama de amorzinho e é só mimos com ela.

O que você acha que poderá acontecer dentro de sua relação profissional? Viu só? RELAÇÃO! Da mesma forma que o temperamento de um animal pode ser incompatível com de seu tutor, o temperamento de um humano pode ser incompatível com o temperamento de outro.

Se o durão aí conhecer minimamente o comportamento humano, saberá:

  1. identificar as diferenças
  2. moldar seu próprio comportamento
  3. superar as diferenças
  4. acessar o temperamento da cliente
  5. não perder a cliente e
  6. resolver o problema conseguindo ainda alguma indicação.

De que vai adiantar chegar na moça sensível e dizer: olha, você não pode mais fazer carinho em Lulu, pois a mima muito. Ela deve deixar de dormir na sua cama e precisa rolar na grama um pouco ao menos. Olha, se não perder a cliente, no mínimo construirá entre si e ela uma grande muralha. Ela vai lhe achar um grosso, insensível e se mantiver o compromisso profissional com você será apenas para NÃO fazer o que você diz e pior: fazer exatamente o contrário.

Repito aqui que isso que estou dizendo sobre comportamento humano não tem absolutamente NADA a ver com ser psicólogo da(o) cliente, por favor, hein? 🙂

Certa vez tive uma cliente que acabou adotando uma pastor alemão alucinada. Medrosa, dominante, insegura. A cachorra tinha uma história de vida difícil, tinha sido maltratada, apanhou muito numa época bem sensível da vida (até 3 meses de idade mais ou menos) e ficou de um jeito bem terrível. Fui chamada e a cliente disse: você é minha última esperança!

PÉÉÉ, minha buzina interna gritou! OPA! Não resolvo isso sozinha não!

Já percebi duas coisas: ela não pretendia participar das aulas e pensava que eu deveria resolver todo o caso entregando outra cã pra ela. Calma, doce, corajosa e que passeasse sem puxar como um trator.

Um dos meus principais objetivos era trazer a cliente para a aula e fazer com que ela entendesse o processo real da educação canina. Ela participou das primeiras aulas e eu percebi sua inabilidade com os equipamentos e sua incapacidade em dar uma bronca. Era muito sensível e mesmo depois de ter sido mordida a ponto de arrancar sangue, mesmo já tendo lutado corporalmente com a cachorra, não conseguia deixar de dar comida na boca nem de colocar pra dormir, cantar nana-neném, etc. Era um caso bem complicado, mas eu teria que dar mesmo um jeito…

Sou do tipo durona, então foi bem complicado, pois mesmo usando milhões de jeitos pra falar a mesma coisa ela acabou se enchendo e sumiu das aulas. Ficávamos eu e a cachorra, às vezes uma empregada.

Fiquei 8 meses na casa, dos quais 6 meses eu ia lá 4 vezes na semana. Eram 40 minutos de aula na rua, passeio. Eu saía sempre com algum hematoma, pois ela tinha a força de 2 tratores. Não penei assim nem com o Mozart do caso anterior, com seus 80 kg. Usei tudo que eu sabia e no fim dos 8 meses a cachorra, que tinha desvios comportamentais sérios, passeava com a atenção toda voltada para mim e na minha presença ficava mais tranquila. A tutora conseguia sim passear com ela também, num pedaço curto, mas conseguia.

No meio do nosso treinamento, a cliente me chamou e disse: “Alessandra, eu entendo tudo que você fala, acho tudo muito certo, mas confesso pra você que não tenho temperamento pra isso”.

BINGO! Ela fechou o caso. Relação incompatível, pois a cachorra precisava de uma líder pra se acalmar devido ao seu alto grau de medo e a necessidade constante de liderar (alta dominância), mas a cliente não conseguiria ser líder. Ela era daquelas que mima, a todos…

Isso foi em 2008, não sei que fim deu essa relação, mas esse caso mostrou claramente pra mim os limites do treinamento quando o tutor não quer ou não consegue participar, entender, se moldar e treinar seu próprio animal.

Abraços! 🙂

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